Transmissão

Como ocorre a transmissão do SARS-CoV-2?

Primeiramente, é importante ressaltar que esse é um vírus novo e informações atuais são sujeitas a modificações conforme mais estudos são realizados. De maneira geral, infecções respiratórias podem ser transmitidas via gotículas respiratórias e/ou aerossol. A transmissão por gotículas ocorre quando a pessoa infectada fala, tosse ou espirra e libera gotículas respiratórias, de 5 a 10 µm de diâmetro, carreando o microrganismo. Por serem gotículas maiores, a transmissão ocorrerá para aqueles indivíduos em proximidade com a pessoa infectada (menos de 1 metro). Por sua vez, a transmissão por aerossol ocorre quando o microrganismo é lançado em gotículas menores de 5 µm de diâmetro, que podem ficar suspensas no ar por maior período de tempo e serem transmitidas para pessoas em distâncias maiores de 1 metro [1]. Essa distinção teórica tem importância histórica, determinando medidas diferentes de contenção e controle da disseminação de patógenos ao longo de décadas. Mas convém ressaltar que essa distinção é antiga e depende do ambiente, da dinâmica do particulado e da composição estrutural do microrganismo, o que nem sempre permite classificação tão binária [2].

No caso do SARS-CoV-2, acredita-se que a principal forma de transmissão seja de pessoa a pessoa (intra-família e comunidade), quando indivíduos estão em contato próximo (menos de 1 metro de distância) e através de gotículas respiratórias produzidas quando a pessoa infectada fala, tosse ou espirra e as mesmas entram em contato com as mucosas dos olhos, nariz e boca ou são inaladas[3–8]. Apesar da transmissão pessoa a pessoa ser considerada a principal forma de transmissão do SARS-CoV-2, é também possível que uma pessoa possa se infectar ao encostar em superfícies ou objetos contaminados e em seguida encostar na boca, nariz e olhos (transmissão por fômites). É esperado que a contribuição de cada forma de infecção seja diretamente influenciada pelo ambiente e a carga microbiana da situação em questão.

Como o potencial de infecção é possivelmente associado com a carga microbiana, acredita-se que as pessoas doentes sejam os maiores amplificadores da doença. Porém, os estudos ainda são contraditórios quanto à comparação da carga viral entre pacientes assintomáticos, com doença leve ou com doença severa e seu potencial de transmissão [9–13]. Já é sugerido que pessoas possam transmitir SARS-CoV-2 antes mesmo de apresentar sintomas [14,15], o que pode ser considerado um agravante no controle da doença. Estudos de transmissão em momentos de pandemia, ainda mais sobre indivíduos assintomáticos, são difíceis de serem conduzidos. Por isso, aguarda-se que mais estudos sejam realizados para mensuração da contribuição de cada fonte de transmissão no número de casos totais observados, em diferentes cenários epidemiológicos.

Assim como outros coronavirus, o SARS-CoV-2 se replica em células intestinais, sugerindo a possibilidade de transmissão pela via fecal-oral. Como esperado, material genético viral tem sido detectado em amostras de fezes de pacientes com COVID-19 [16,17]. Porém, a presença do material genético não indica que os vírus estejam viáveis. Apenas dois estudos até o momento reportam o isolamento de SARS-CoV-2 de fezes de pacientes infectados [18,19]. Contudo, poucos detalhes foram disponibilizados. Desta forma, o papel e a importância da transmissão fecal-oral na epidemiologia do SARS-CoV-2 permanecem desconhecidos.

A transmissão por aerossol tem sido uma preocupação no ambiente hospitalar. Não existem evidências ainda de transmissão por aerossol no ambiente domiciliar. Procedimentos que resultam na formação de aerossol como intubações endotraqueais, broncoscopia, sucções abertas, nebulizações, ventilação manual antes da intubação, realização da prona, desconectar um paciente do ventilador, ventilação não invasiva de pressão positiva, traqueostomia e ressuscitação cardiopulmonar entre outros, são riscos importantes de transmissão via aerossol. O uso correto e adequado dos EPIs de proteção respiratória (máscaras N95/PFF-2, óculos, visores, luvas, aventais e macacões) pelo profissional de saúde é imprescindível nesses procedimentos.

É importante ressaltar que ambientes hospitalares, devido a alta concentração de pacientes doentes, podem servir como amplificadores da doença para comunidade. Profissionais de saúde podem se infectar, adoecer e também transmitir para pacientes hospitalizados ou outros profissionais de saúde dentro do ambiente hospitalar. Por isso, é de extrema importância a utilização de equipamentos de proteção individual, a aplicação de procedimentos administrativos e de trabalho específicos para controle da transmissão e a infraestrutura hospitalar adequada para lidar com infecções respiratórias.

 

Referências

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  2. Bourouiba, L. Turbulent Gas Clouds and Respiratory Pathogen Emissions Potential Implications for Reducing Transmission of COVID-19. JAMA – J. Am. Med. Assoc. 2020, 1–2.
  3. Liu, J.; Liao, X.; Qian, S.; Yuan, J.; Wang, F.; Liu, Y.; Wang, Z.; Wang, F.-S.; Liu, L.; Zhang, Z. Community Transmission of Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2, Shenzhen, China, 2020. Emerg. Infect. Dis. J. 2020, 26.
  4. Chan, J.F.W.; Yuan, S.; Kok, K.H.; To, K.K.W.; Chu, H.; Yang, J.; Xing, F.; Liu, J.; Yip, C.C.Y.; Poon, R.W.S.; et al. A familial cluster of pneumonia associated with the 2019 novel coronavirus indicating person-to-person transmission: a study of a family cluster. Lancet 2020, 395, 514–523.
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  6. Huang, C.; Wang, Y.; Li, X.; Ren, L.; Zhao, J.; Hu, Y.; Zhang, L.; Fan, G.; Xu, J.; Gu, X.; et al. Clinical features of patients infected with 2019 novel coronavirus in Wuhan, China. Lancet 2020, 395, 497–506.
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